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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mozart no céu - Manuel Bandeira




No dia 5 de Dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart
entrou no céu, como um artista de circo, fazendo
piruetas extraordinárias sôbre um mirabolante cavalo branco.
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Os anjinhos atónitos diziam: Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares
superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Porquinho-da-Índia - Manuel Bandeira



Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
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— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cotovia - Manuel Bandeira

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— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?
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— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.
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— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.
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— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .
— E esqueceste Pernambuco, Distraída?
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— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.
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— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!
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— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
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Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
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Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Debussy - Manuel Bandeira

(Fotografia de Rarindra Prakarsa)
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Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Um novelozinho de linha...
Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai...)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
- Psio...
-Para cá e para lá...
Para cá e...
- O novelozinho caiu.
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